A vaidade de um senador e o preço da instabilidade política em Minas

A vaidade de um senador e o preço da instabilidade política em Minas

Cleitinho ilustra como o personalismo ainda sequestra decisões que deveriam ser coletivas e institucionais

Em menos de 24 horas, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) desistiu de concorrer ao governo de Minas Gerais, gravou vídeo confirmando a decisão e depois voltou atrás, implorando publicamente por uma vaga que o próprio partido já havia negado. O episódio, por mais pitoresco que pareça, revela algo mais profundo do que um simples caso de indecisão pessoal: expõe a fragilidade de uma cultura política ainda organizada em torno de vontades individuais, e não de projetos coletivos pactuados com transparência.

Não se trata de um detalhe menor. Estamos a um dia do prazo final das convenções partidárias, um momento em que legendas precisam apresentar ao eleitorado nomes, propostas e coligações minimamente consolidadas. Nesse contexto, a hesitação de uma única figura pública paralisou temporariamente as articulações de um partido inteiro em um estado com mais de 20 milhões de habitantes.

O caso Cleitinho sintetiza um problema estrutural da política brasileira: a prevalência do desejo individual sobre o processo coletivo de decisão. O próprio presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, foi didático ao descrever a sequência de idas e vindas do senador, destacando que o partido ofereceu prazos, reuniões e oportunidades — e que, ainda assim, Cleitinho não compareceu à convenção estadual nem enviou uma procuração formalizando sua posição.

Esse comportamento evidencia uma lógica na qual normas partidárias e compromissos coletivos são tratados como obstáculos negociáveis, e não como regras que estruturam a vida democrática. Quando um agente político trata a candidatura a um governo estadual como algo que se decide “no calor do momento”, ele desconsidera o peso institucional do cargo que pretende ocupar. Governar Minas Gerais não é uma escolha pessoal a ser revista a cada nova pressão familiar ou emocional — é um compromisso público que exige planejamento, coerência e responsabilidade com o eleitorado.

Quem defende esse tipo de personalismo costuma argumentar que a política é, por natureza, feita de emoção, carisma e conexão direta com o povo — e que a rigidez dos partidos tradicionais é exatamente o que afasta o eleitor da política. Cleitinho recorreu a esse discurso ao afirmar que “é o povo que está me pedindo” para ser candidato, numa tentativa de legitimar sua guinada por meio da vontade popular direta, e não das regras institucionais do partido.

O argumento não é desprezível: parte do desgaste dos partidos brasileiros vem justamente da distância entre suas estruturas burocráticas e as demandas concretas da população. Contudo, substituir processos partidários por decisões tomadas sob impulso emocional não fortalece a conexão com o eleitor — apenas transfere para o cargo público a mesma instabilidade que o candidato demonstra em sua própria trajetória. Carisma sem compromisso institucional não constrói governos estáveis; constrói personalismos que, historicamente, tendem a fragilizar ainda mais as instituições democráticas que deveriam ser fortalecidas.

Minas não pode ser terreno de teste emocional

Marcos Pereira acertou ao recusar submeter “milhões de brasileiros mineiros” a uma “situação de insegurança” política, nas palavras do próprio presidente do partido. A frase capta bem o cerne do problema: um governo estadual lida diretamente com políticas de saúde, educação, segurança pública e enfrentamento às desigualdades regionais que ainda marcam profundamente Minas Gerais — do Vale do Jequitinhonha às periferias da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Colocar essa responsabilidade nas mãos de quem muda de posição “cinco minutos depois”, como definiu Pereira, é um risco que o processo democrático não deveria correr.

Isso não significa negar a dor pessoal relatada pelo senador, que mencionou viver um momento de vulnerabilidade emocional após a perda do irmão. Circunstâncias humanas merecem acolhimento e respeito. Mas justamente por isso, momentos de fragilidade pessoal não deveriam ser o critério para decidir quem disputa o comando de um estado inteiro — e um sistema partidário saudável é aquele capaz de acolher a pessoa sem terceirizar a ela decisões que exigem estabilidade institucional.

Democracia

O episódio Cleitinho deveria servir de alerta para um debate mais amplo: partidos políticos precisam de processos decisórios mais transparentes, previsíveis e menos reféns de negociações pessoais de última hora. Quanto mais as candidaturas dependerem de acordos de bastidor sujeitos a reviravoltas emocionais, mais distante o eleitorado ficará de confiar nas instituições que deveriam representá-lo.

Minas Gerais merece um processo eleitoral construído sobre compromissos claros com a população, não sobre a instabilidade de quem ainda não decidiu, nem para si mesmo, o que representa na vida pública.

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Lourival Santana

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