Flávio Bolsoanro: a lama que pode manchar empresários mineiros

Há uma cena que resume bem o estágio atual da pré-campanha de Flávio Bolsonaro em Minas Gerais: enquanto a Polícia Civil de São Paulo cumpria mandados de busca e apreensão na sede da ONG de sua aliada Karina Ferreira da Gama — investigada por suspeita de fraude em um contrato milionário —, o senador percorria os corredores do Mercado Central de Belo Horizonte comendo pão de queijo e acumulando selfies. À noite, jantava na casa de Flávio Roscoe, o presidente licenciado da Fiemg. No dia seguinte, visitaria as obras do aeroporto de Betim ao lado de Vittorio Medioli.
A política, sabe-se, raramente é inocente. Mas há momentos em que o custo de uma aliança deixa de ser apenas moral e passa a ser reputacional — e potencialmente jurídico. Este parece ser um desses momentos.
O filme, a ONG e o banqueiro preso
Em 13 de maio, o Intercept Brasil revelou que Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, um financiamento de R$ 134 milhões para Dark Horse. Segundo a reportagem, R$ 61 milhões teriam chegado à produção. Vorcaro, vale lembrar, estava usando tornozeleira eletrônica quando o senador o visitou — preso por envolvimento em esquema de fraudes financeiras bilionárias. Flávio chamava o banqueiro criminoso de “irmão” em mensagens de voz. Brasil 247
A produtora do filme no Brasil é Karina Ferreira da Gama, que também preside o Instituto Conhecer Brasil (ICB). A Polícia Civil abriu a Operação Wi-Fi em 1º de junho para investigar o contrato 01/SMIT/2024, da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da Prefeitura de São Paulo, que previa 5 mil pontos de Wi-Fi gratuito em áreas vulneráveis, com valor final de R$ 157,1 milhões. As investigações apontam que apenas 3,2 mil pontos foram instalados e cerca de R$ 26 milhões podem ter sido pagos sem a prestação correspondente, configurando suspeita de fraude e lavagem de dinheiro. Revista Fórum
Durante as buscas, os policiais confiscaram documentos, o celular de Karina e um HD com contratos da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. Diante disso, Flávio Bolsonaro reagiu com o vocabulário de sempre: falou em “perseguição” e “pescaria probatória”. Nenhuma explicação concreta sobre o dinheiro, sobre o banqueiro ou sobre a produtora. Apenas retórica. Times Brasil
Cercado de escândalos, Flávio Bolsonaro seduze a elite empresarial de Minas — e pode arrastá-la consigo
O pré-candidato tem compromissos com o ex-presidente da Fiemg Flávio Roscoe e almoça com o ex-prefeito de Betim Vittorio Medioli, ambos apontados como possíveis nomes para compor uma chapa majoritária apoiada pelo PL em Minas. Após o evento no Parque da Gameleira, Flávio Bolsonaro foi jantar na casa de Roscoe, anfitrião de um jantar com empresários e filiados do partido.
A visita a Betim segue o mesmo roteiro: Flávio será recebido por Vittorio Medioli para uma visita às obras do aeroporto do município, onde, após a visita, haverá um café com deputados e empresários do estado.
O problema não é a agenda. O problema é o momento. Flávio Bolsonaro chega a Minas Gerais mergulhado num escândalo que envolve banqueiro condenado, ONG investigada por fraude e dinheiro público possivelmente desviado — e, em vez de apresentar propostas à altura do segundo maior colégio eleitoral do país, distribui sorrisos e pede legitimação ao empresariado mineiro. Roscoe e Medioli, ao abrirem suas portas e seus eventos a esse cenário, correm o risco de associar seus nomes — e, por extensão, a credibilidade da cadeia produtiva que representam — a um projeto político encoberto pela névoa do escândalo.
O contraponto que não se sustenta
Os aliados de Flávio dirão que as investigações ainda não provaram nada, que separar o filme da ONG investigada é uma questão de razoabilidade e que qualquer suspeita seria instrumentalização política. Esse argumento merece ser levado a sério — mas apenas até certo ponto.
Em dezembro de 2025, o Intercept revelou que Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil, havia recebido pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um contrato de Wi-Fi público sem concluir as entregas previstas. Desde março, o Ministério Público já estava investigando o contrato. Ou seja, as suspeitas não nasceram da operação de segunda-feira: elas vinham sendo construídas há meses, com documentos, movimentações financeiras e análises do Coaf. Quando um senador que pleiteia a Presidência da República mantém relação estreita com uma rede de pessoas investigadas por fraude — e recusa explicações —, o ônus de provar a inocência política recai sobre ele, não sobre os investigadores. Intercept Brasil

Minas merece mais do que isso
A Fiemg representa um dos maiores parques industriais da América Latina. Betim abriga o maior complexo industrial do estado. Vittorio Medioli governou por dois mandatos uma cidade que é referência em gestão municipal. Flávio Roscoe liderou, por anos, a principal entidade do setor produtivo mineiro. São nomes com capital político e institucional construído ao longo de décadas.
Associar esse capital a uma candidatura que, neste momento, não consegue explicar de onde vem o dinheiro do próprio filme que financia, não oferece propostas concretas para a indústria mineira e chega ao estado mais preocupado em se fotografar do que em debater política econômica é, no mínimo, um péssimo negócio. No máximo, pode ser um passo irreversível rumo a um pântano do qual é muito difícil sair.
A questão que fica — e que os empresários mineiros deveriam se fazer antes de qualquer jantar, café ou foto — é simples: quanto vale o acesso a um candidato cercado de escândalos, e quanto custa a reputação construída ao longo de uma vida?
Jornalista Lourival Santana
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