Entre a lona e a esperança, venezuelanos sobrevivem em Betim

Em Betim, na Grande Belo Horizonte, o prefeito Heron Guimarães (UB) assumiu compromissos concretos com a comunidade indígena Warao: vacinação semanal dentro da Ocupação Terra Mãe, equipe permanente da atenção primária e um fluxo de acolhimento específico para os 258 venezuelanos que vivem no local em barracos de lona, sem água potável, sem saneamento. A decisão veio tarde — tarde demais para Camila Rátia, bebê de 1 ano e 4 meses que morreu de desnutrição em maio de 2026, enquanto o governo americano disputava petróleo do outro lado do continente. Ainda assim, é um passo que merece ser reconhecido, porque sinaliza que o Estado pode agir — quando há sensibilidade humana para isso.
Na época em que Betim ensaiava essa resposta humanitária, memes de “Venezuela livre” explodiam nos grupos de WhatsApp. Nicolás Maduro havia sido capturado pelo governo dos Estados Unidos. Nas praças de Boa Vista, venezuelanos organizavam comemorações. Era janeiro de 2026 — e a esperança do retorno voltava a pulsar no peito de quem cruzara a fronteira para sobreviver. Os dois cenários, no entanto, narram a mesma história: a de um Brasil que ainda não decidiu que país quer ser para quem chega pedindo abrigo. E para quem tem só uma barraca de lona para chamar de lar, enquanto essa decisão não vem, nada muda.

Um compromisso que chegou a tempo de ser cobrado
A Ocupação Terra Mãe existe desde agosto de 2023, na Região PTB. Durante dois anos e meio, os moradores ficaram sem cobertura efetiva de Agente Comunitário de Saúde. Voluntárias como Flávia Gomes faziam o trabalho que o município deveria ter feito — identificando crianças em risco, acionando o sistema de saúde. O caso mostra que receber imigrantes sem pensar na infraestrutura pode ser letal para o povo que busca refúgio.
Diante disso, o compromisso do prefeito Heron Guimarães merece ser celebrado — mesmo diante do histórico assustador que o precedeu. Governar um município que já pressiona por serviços sociais e ainda absorve um fluxo crescente de refugiados exige mais do que resiliência: exige apoio coordenado dos governos estadual e federal. Nesse sentido, a ação correta só foi possível com a atuação conjunta do Ministério Público, do Judiciário, da Cruz Vermelha e da sociedade civil — e isso também precisa ser dito.
A queda de Maduro não apaga a dívida com quem já está aqui
Há um argumento recorrente: o Brasil já faz demais pelos refugiados; os recursos são escassos; as fronteiras têm limites. Esse raciocínio ignora que a legislação brasileira garante a imigrantes os mesmos direitos fundamentais dos cidadãos nacionais — incluindo saúde. Negar assistência básica a uma criança é violação de direitos humanos. E o Brasil assinou os tratados internacionais que o obrigam a cumpri-los.
A captura de Maduro abre uma nova página para a Venezuela, mas não fecha a que o Brasil ainda precisa escrever. Até que o retorno seja possível de verdade, esses homens, mulheres e crianças continuam sendo responsabilidade deste país — não como favor, mas como obrigação constitucional.
A resposta para o tipo de país que o Brasil quer ser não está nos memes de celebração. Está na lona molhada de Betim — e na disposição de agir antes que seja tarde demais.
Lourival Santana – jornalista
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