Medioli se vê enroscado na indefinição do PL

Medioli se vê enroscado na indefinição do PL
 Há uma cena que se repete no teatro político brasileiro com uma regularidade quase cômica. Um empresário bem-sucedido, com passagem ou não pelo setor público, sobe ao palanque e anuncia que chegou para “colocar a casa em ordem”. O enredo é sempre o mesmo: o Estado é ineficiente, os políticos são incompetentes, e o mercado — representado por ele, claro — tem as respostas que faltam.

Em entrevista na Record MG, Medioli diz que o Estado “está um caco”, nessa ele acertou. Mas a questão é mais profunda: por que chegamos até aqui?

Vittorio Medioli, ex-prefeito de Betim e recém-filiado ao PL, tem mais substância do que a média desse personagem. Em uma só tacada, descartou o senador Cleitinho Azevedo e o presidente da FIEMG, Flávio Roscoe, apontando-os como aventureiros sem experiência, sem citá-lo nessa condição. Mas mesmo ele, ao declarar que “Minas Gerais está um caco” e mirar o governo do Estado, merece uma pergunta mais incômoda: o diagnóstico está certo, mas e o remédio?

O mérito real e os limites do gestor técnico

Medioli tem razão em pelo menos um ponto central: não basta ser empresário para governar. “Não adianta ser empresário e dizer eu entro no setor público e coloco tudo em ordem. Não. Você tem que aprender o setor político para colocar sua capacidade empresarial”, afirmou. É uma autocrítica rara no campo do liberalismo econômico, e merece crédito.

O ex-prefeito de Betim entregou resultados verificáveis. Assumiu uma dívida equivalente a quase duas vezes o orçamento municipal e equacionou a situação por meio de um acordo judicial. Isso, por si só, não é um salvo-conduto para governar um estado em frangalhos. Além disso, a cidade passou de 20 mil desempregados para um cenário em que trabalhadores de outros municípios vinham buscar vagas em Betim — reflexo, em parte, do pleno emprego característico dos governos do presidente Lula, o que tem pouca relação direta com a gestão municipal.

No entanto, Betim é Betim — um município com base industrial robusta, fortemente ancorada na Fiat e no polo petroquímico. Minas Gerais é outra escala de complexidade: 853 municípios, 21 milhões de habitantes, uma das maiores dívidas subnacionais do Brasil e desigualdades regionais abissais entre o Triângulo Mineiro e o Vale do Jequitinhonha. Ou seja, acordos pontuais e gestos de autoridade não resolvem problemas estruturais com varinha mágica.

“Minas está um caco”: diagnóstico justo, análise incompleta

A frase de Medioli é politicamente eficaz e factualmente defensável. Minas Gerais acumula décadas de desequilíbrio fiscal, uma dívida com a União que consome parcela significativa da receita estadual e um funcionalismo público historicamente mal remunerado. O governo Zema, apesar do discurso de austeridade, não conseguiu equacionar o problema estrutural — e o Estado segue refém de uma armadilha fiscal que nenhum gestor resolve no curto prazo apenas com “vontade política”. As dívidas superam R$ 200 bilhões, e Minas só está de pé porque o STF suspendeu o pagamento das parcelas do empréstimo com a União.

Por outro lado, reduzir a crise mineira à má gestão é conveniente, mas incompleto. Parte do problema tem origem no pacto federativo desequilibrado, na política de juros que penaliza estados endividados e na ausência de uma reforma tributária que redistribua melhor os recursos entre União, estados e municípios. Minas “está um caco” porque os governadores de direita anteriores erraram — tratar uma doença antiga com o mesmo remédio é atestado de incompetência. Depois de Zema, outro governo do PL seria tentar andar para a frente com marcha a ré.

Nesse contexto, qualquer projeto sério para Minas precisa ir além do discurso da gestão eficiente e enfrentar a negociação da dívida com a União, o fortalecimento dos serviços públicos nas regiões mais pobres e a construção de uma base econômica menos dependente de commodities e montadoras.

A aliança com Cleitinho e o que ela revela

A aproximação de Medioli com o senador Cleitinho (Republicanos), líder nas pesquisas para o governo de Minas em 2026, diz muito sobre o campo político em que ele escolheu se mover. O PL de Bolsonaro, a retórica anticorrupção de Cleitinho — que vai enfrentar dificuldades se abraçar Flávio Bolsonaro, encrencado no caso Vorcaro — e o discurso do gestor técnico formam um pacote ideológico coerente, mas que historicamente tem dificuldade em traduzir eficiência municipal em política estadual redistributiva.

Vale destacar que governar um estado não é apenas equilibrar o caixa. É decidir quais escolas recebem reforma primeiro, quais hospitais regionais ficam abertos, quais rodovias conectam os municípios mais pobres ao mercado. Essas são decisões políticas, não apenas técnicas — e é justamente aí que o discurso do “gestor que resolve” frequentemente se choca com a realidade de um Estado que precisa fazer escolhas distributivas difíceis.

Medioli
Empresário Vittorio Medioli à TV Record Minas — FT: Reprodução/Record Minas

Sendo assim, a pergunta que Minas deveria fazer a Medioli — e a qualquer candidato ao governo — não é apenas “você sabe equilibrar as contas?”. É: “quando o dinheiro acabar, quem você vai deixar para trás?”

O espelho que nenhum candidato quer encarar

Medioli acertou ao dizer que  pode ser o melhor estado do Brasil. Pode, de fato. Tem mineração, agronegócio, tecnologia, cultura e uma das maiores redes universitárias do país. O potencial existe. O problema é que esse potencial convive com o segundo maior número absoluto de pessoas em situação de extrema pobreza entre os estados brasileiros, segundo dados do IBGE.

Portanto, o verdadeiro teste para qualquer gestor que queira transformar Minas não é zerar a dívida — é garantir que, ao fazer isso, não seja a população mais vulnerável a pagar a conta. Medioli tem um histórico para apresentar. Mas o eleitor mineiro precisa exigir mais do que histórico: precisa exigir um projeto diferente do que a direita fez no Estado nos últimos anos. Como Vittorio fará um bolo diferente com os mesmos ingredientes, não se sabe — pois dificilmente os gritos de Cleitinho nas redes sociais mudam o sabor de qualquer comida.

E projetos, diferentemente de números de gestão, revelam escolhas. E escolhas revelam valores. É aí que o debate de 2026 em Minas Gerais vai, de verdade, começar.

Jornalista e analista político – Lourival Santana

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Vittorio Medioli

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