EUA ficam com o petróleo, Betim com a crise: o preço humano do saque à Venezuela

EUA ficam com o petróleo, Betim com a crise: o preço humano do saque à Venezuela

Na mesma terça-feira em que Donald Trump discursava na Assembleia Geral da ONU sobre o “maior acordo petroleiro da história”, o prefeito de Betim, Heron Guimarães, recebia dezenas de famílias venezuelanas em situação de rua para discutir a regularização de um acampamento. De um lado, o espólio de uma nação inteira sendo celebrado como conquista geopolítica. Do outro, os corpos concretos que essa espoliação empurra para fora de casa. Dificilmente uma coincidência de calendário ilustrou tão bem a distância entre o discurso do poder e a vida de quem paga a conta dentro e fora do seu país.

Enquanto Trump celebra na ONU o controle de 60% do petróleo mundial, a 7.420 quilômetros de distância, famílias venezuelanas seguem ao relento na Grande BH.

Trump não escondeu o que fez. Diante da própria delegação venezuelana, liderada pela presidenta em exercício Delcy Rodríguez, ele descreveu o acordo de 65 bilhões de barris de petróleo como um negócio que soma os Estados Unidos à Venezuela para controlar mais de 60% das reservas mundiais. A frase que resume o espírito da fala — “ao vencedor, pertence o espólio” — não é força de expressão: é doutrina de política externa dita em voz alta, num fórum criado justamente para impedir esse tipo de relação entre nações.

EUA ficam com a riqueza do petróleo venezuelano, e Betim com as mazelas sociais da imigração forçada.

O episódio não nasceu na terça-feira. Desde a operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro, em janeiro deste ano, Trump vem anunciando publicamente a entrega de dezenas de milhões de barris de petróleo venezuelano aos Estados Unidos, sob a justificativa de que o recurso “deveria ter sido pego há muitos anos”. Em Davos, poucas semanas depois, ele já comemorava os primeiros 50 milhões de barris produzidos.

Venezuela
Os indígenas venezuelanos ocupam uma área em Betim – Região PTB | FT: Juarez Rodrigues / TJMG

O que mudou na ONU foi apenas o palco: o discurso do controle territorial e econômico sobre um país latino-americano passou a ser proferido como triunfo diplomático, sem qualquer constrangimento.

Contraponto

A defesa mais comum desse tipo de acordo argumenta que se trata de negócio legítimo, aceito pelo próprio governo interino venezuelano, e que os recursos “beneficiarão a população local”. Ora, um acordo firmado sob ocupação militar, com receitas controladas diretamente pelo presidente de outro país, não é livre negociação entre iguais — é subordinação econômica travestida de parceria. Nenhuma nação que tivesse escolha real entregaria o controle de suas reservas de petróleo e a gestão de suas receitas a um governo estrangeiro que, na mesma semana, ameaça usar “força militar incomparável” contra qualquer país da região que discorde de seus interesses. A ameaça explícita à América Latina, feita no mesmo discurso, expõe o caráter coercitivo por trás da retórica de cooperação.

Quem sobra quando um país é saqueado

Enquanto isso, cerca de oito milhões e meio de venezuelanos vivem exilados mundo afora, muitos deles ao relento, segundo dados que organismos internacionais vêm acompanhando há anos. Betim conhece essa realidade de perto: em junho, a prefeitura precisou decretar situação de emergência para atender indígenas venezuelanos da etnia Warao que viviam em condições de extrema vulnerabilidade na cidade, episódio que só ganhou atenção pública depois da morte de um bebê indígena por desnutrição. Agora, é a vez de dezenas de famílias em situação de rua buscarem regularização junto ao prefeito Heron Guimarães.

Essas duas cenas — o saque celebrado em Nova York e o acampamento recebido em Betim — não são fatos isolados. São a mesma engrenagem vista de pontas opostas. Não se esvazia um país de suas riquezas sem esvaziá-lo também de gente, e não se empurra uma população para o deslocamento forçado sem que ela precise, em algum lugar, bater à porta de um poder público municipal que raramente tem estrutura para essa responsabilidade sozinho.

O que fica depois do discurso

Diante disso, cabe perguntar: quanto tempo mais o sistema internacional vai tratar como normalidade um chefe de Estado anunciar publicamente, em pleno palco da ONU, que pratica espoliação sobre outra nação? A resposta não pode depender apenas de prefeitos como Heron Guimarães, que fazem o possível com recursos municipais para acolher quem chega sem nada. Ela exige política migratória nacional coordenada, cooperação entre países latino-americanos e uma reação diplomática que não trate a fala de Trump como retórica eleitoral, mas como o que de fato é: a confissão de um projeto de dominação. Enquanto isso não acontece, seguirá cabendo às cidades pequenas e médias do Brasil recolher, uma família de cada vez, os espólios humanos de um saque anunciado sem pudor no púlpito mais importante do mundo.

‘Ao vencedor, os espólios’: o saque à Venezuela e o preço humano que Betim conhece de perto
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Lourival Santana

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