O peso da raça: Carla Perez no Carnaval de Salvador monta em um negro

O peso da raça: Carla Perez no Carnaval de Salvador monta em um negro

O racismo persiste após 13 de maio de 1888 – no Brasil – com a assinatura da Lei Áurea que pôs fim a escravidão. O episódio envolvendo Carla Perez no carnaval de Salvador não pode ser analisado apenas como um gesto isolado durante um desfile. Ao subir nos ombros de um segurança negro para se aproximar das crianças no trio Pipoca Doce, a artista afirmou que buscava contato com o público infantil. No entanto, a imagem que circulou nas redes sociais revelou algo maior: símbolos carregam histórias, e no Brasil essas histórias são atravessadas por desigualdades raciais profundas.

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É justamente por isso que a repercussão foi tão intensa. Ainda que a intenção tenha sido positiva, o gesto evocou estruturas que fazem parte da formação social brasileira. E quando fala do retorno à escravidão, discute também de um dos maiores palcos culturais do país, onde a população negra ocupa papel central na construção artística, econômica e histórica da festa.

Carla Perez no Carnaval de Salvador
Carla Perez no Carnaval de Salvador

Reconhecer o erro é suficiente?

Eu considero importante destacar que a artista pediu desculpas de forma clara e direta. Ela reconheceu que a imagem era “dura” e que remetia a desigualdades históricas. Esse reconhecimento público demonstra sensibilidade. Contudo, o debate não termina no pedido de desculpas.

Quando analisa o contexto do Carnaval de Salvador, entendemos que cada gesto tem potência simbólica ampliada. Trata-se de uma celebração construída majoritariamente por pessoas negras, que historicamente enfrentaram exclusões sociais. Portanto, ações que, mesmo involuntariamente, reproduzam imagens de hierarquia racial merecem reflexão profunda.

Além disso, o episódio reforça uma verdade incômoda: no Brasil, não basta ter boa intenção. É preciso ter consciência histórica.

A responsabilidade de figuras públicas

Carla Perez no Carnaval de Salvador
Carla Perez durante desfile no Carnaval de Salvador  gerou debate nacional sobre racismo estrutural ao montar num negro – FT: reprodução Instagran

A presença de Carla Perez no carnaval de Salvador atrai multidões, principalmente crianças e famílias. Isso amplia sua responsabilidade simbólica. Figuras públicas influenciam comportamentos, percepções e debates sociais. Por isso, acredito que artistas precisam incorporar algumas práticas essenciais:

  • Avaliar previamente o impacto simbólico de suas ações;

  • Manter equipes diversas que ajudem na leitura social de imagens;

  • Reconhecer rapidamente eventuais erros, como Carla fez;

  • Transformar a polêmica em oportunidade de aprendizado coletivo.

Não se trata de “cancelamento”, mas de amadurecimento social. O Brasil vive um momento em que a sociedade questiona estruturas históricas com mais intensidade. Ignorar esse movimento seria um retrocesso.

A despedida que emocionou, mas também ensinou

É impossível negar que a despedida de Carla Perez no carnaval de Salvador foi carregada de emoção. O trio Pipoca Doce marcou gerações e consolidou um espaço seguro para o público infantil na folia. Famílias viajaram para viver o último desfile. Crianças estrearam no Carnaval sob o comando da artista.

Entretanto, a emoção não anula a reflexão. Pelo contrário: momentos simbólicos exigem ainda mais cuidado. O carinho do público demonstra que a trajetória de Carla permanece relevante. Porém, sua relevância aumenta sua responsabilidade.

Carla Perez no carnaval de Salvador praticou racismo?
“Sem palavras”, Carla Perez no Carnaval de Salvador praticou racismo? – FT: reprodução Instagran

Carla Perez no carnaval de Salvador praticou racismo?

Na minha visão, o caso de Carla Perez no carnaval de Salvador evidencia algo maior do que uma polêmica pontual. Ele mostra que o país está mais atento às imagens que naturalizamos por décadas. Mostra também que artistas já não podem se apoiar apenas na intenção — precisam compreender o contexto social que os cerca.

Se há algo positivo nessa discussão, é o fato de que o diálogo aconteceu. Carla reconheceu o erro. A sociedade debateu. A imprensa problematizou. Isso demonstra evolução.

O carnaval continuará sendo espaço de alegria, mas também precisa ser espaço de consciência. Afinal, cultura popular e responsabilidade social caminham juntas.

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Lourival Santana

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