Carnaval vira tribunal da história

Carnaval vira tribunal da história

O desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí transcendeu a homenagem a Luiz Inácio Lula da Silva. A escola concebeu uma narrativa visual arrojada que sacudiu o mundo político ao retratar, sem meias palavras, o escárnio que tomou conta da política brasileira nos últimos anos — Carnaval vira tribunal da história. Personagens e símbolos da história recente desfilaram na avenida: o “golpe” na presidenta Dilma Rousseff, com Michel Temer tomando a faixa presidencial, e Jair Bolsonaro representado como palhaço e atrás das grades. Nesse cenário, o resultado do Carnaval pouco importou — o assunto dominou as redes, desafiou o bolsonarismo, escancarou os conservadores e expôs o retrocesso de pensamento desse estrato social.

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Acadêmicos de Niterói

O enredo transformou a avenida em palco de reconstrução, o que fez o Carnaval vira tribunal da história. Ao abordar episódios nevrálgicos como impeachment, pandemia e polarização, o desfile cumpriu seu papel de provocar e dividir opiniões. Reduzir a discussão a uma possível infração eleitoral seria ignorar o peso simbólico de um espetáculo que ousou propor uma leitura crítica dos últimos e turbulentos anos da vida nacional. A escola jogou na cara da sociedade um Bolsonaro com cara de palhaço, que tripudiou dos brasileiros com cenas de comédia pastelão, mas cujo conteúdo trágico ainda ecoa na memória do país.

O “golpe” e a faixa presidencial

Carnaval vira tribunal da história
Michel Temer (MDB) foi retratado como “usurpador” da Presidência da República – FT: Alex Ferro | Riotur

Um dos momentos mais comentados foi a encenação do impeachment de Dilma Rousseff, quando o cenário comunica — afinal, o  Carnaval vira tribunal da história na interpretação proposta pela escola. Em alegoria de forte carga dramática, a faixa presidencial era retirada por Michel Temer caracterizado como vampiro, numa representação que ecoava a narrativa de “golpe de Estado”. Ao dramatizar a transição de poder sob essa ótica, a escola não apenas narrou fatos, mas os interpretou segundo uma perspectiva política definida. É nesse ponto que a acusação de propaganda eleitoral antecipada ganhou tração, mas o enredo ensinou muito mais do que escolas que passam décadas tentando ensinar história às crianças.

Bolsonaro: da “arminha” ao Bozo

A representação de Jair Bolsonaro teve potência crítica inegável. O personagem surgiu com o gesto da “arminha”, símbolo de sua campanha, e, em seguida, caracterizado como “palhaço Bozo”, numa sátira que culminava com sua representação atrás das grades. A sequência foi carregada de ironia, dialogando com investigações que marcam a trajetória do ex-presidente.

O sambista jogou no colo do povo um personagem criado no submundo político, que carrega a sujeira da ignorância institucionalizada. O desfile escancarou seu tom mais forte ao apontar para um cemitério de cruzes, lembrando as mais  700 mil mortes por Covid-19 enquanto Bolsonaro fazia piadas com a tragédia.

As cruzes e a memória que não se apaga

A ala das cruzes, em memória às vítimas da pandemia, foi o momento de maior comoção. O impacto visual foi imediato e universal. Ao evocar a condução da pandemia, a escola trouxe para a avenida um debate que ainda pulsa na sociedade brasileira. O desfile transcendeu a narrativa partidária para assumir tom de memorial e denúncia. A arte funcionou como lamento e homenagem. Ainda assim, críticos argumentam que, ao associar a tragédia sanitária a um adversário político de Lula, a escola reforçou narrativa eleitoral.

Acadêmicos de Niterói na Sapucaí

Na minha avaliação, o desfile reafirmou o Carnaval como espaço legítimo de disputa simbólica e memória coletiva. Figuras como Dilma, Temer e Bolsonaro nas alegorias demonstram que a avenida não teme revisitar feridas recentes, usando a arte para processar a realidade — e quando Carnaval vira tribunal da história, a cultura assume papel central no debate público.

Em ano eleitoral, o questionamento sobre limites legais é pertinente, mas até juristas ligados ao bolsonarismo reconheceram que a escola se manteve dentro da Constituição. Caberá à Justiça Eleitoral discernir se houve extrapolação dos limites da liberdade de expressão.

Presidente Lula é homenageado no Carnaval do Rio

Presidente Lula é homenageado no Carnaval do Rio
Lula assiste ao desfile no camarote da Sapucaí – FT: João Salles | Riotur

O que me parece inegável é que o desfile provocou reflexão nacional, escancarando fraturas e forçando o país a olhar para seu passado recente. Se a avenida se transformou em tribunal da história, foi porque decidiu não se calar diante dela, lembrando-nos que, no Brasil, a memória também pode ser ato de resistência e criação — prova de que, neste ano, o Carnaval vira tribunal da história.

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Lourival Santana

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